
A Arte de Ser Feliz
“Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas, todas as manhãs vinha um pobre com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.”
(autoria:Cecília Meireles)


Sou Mulher!
(Sonhos Mais Íntimos)
Não há um instante.
Não há um momento.
Nem o suave sussurro da brisa.
Nem as saudades que sobraram
De andanças antigas,
Me deixam esquecer
Que sou vento. Que sou terra.
Que sou canto.Que sou quimera!
Que tenho no corpo o cheiro da noite.
Nos lábios o gosto do mato.
Nas entranhas, o mel silvestre,
E no olhar orvalhado trago o
Doce e meigo luar do sertão!
Sou humilde flor pequenina
Que se abre pela manhã
À espera do sol
P'ra desabrochar seu amor!
Sou o sertão.
Sou o sabiá que canta
No galho da mangueira.
Sou a chuva que pinga e respinga
Molhando a terra seca
Que faz florescer a roseira!
Sou o cheiro da terra molhada,
Da fantasia alucinante,
Dos rios, cascatas, pântanos,
Sou o verso único e maior
do poeta sonhador!
Sou a mentira. O sonho. A ilusão.
Sou a verdade da lágrima
No bom dia que raia!
Sou a canção de ninar.
Sou a agulha do bordado.
Sou a broa quentinha,
Sou o fogo no chão,
Sou paixão.
Sou o teu lugar vazio.
Sou a melancolia.
Sou a ausência total
Dos movimentos e de vozes!
Sou companheira. Sou parceira.
Que mais queres de mim,
Se já sou tu e não eu?
E na saudade que nos afasta
Sou a lembrança
Dos sonhos mais íntimos!
(autoria: Delasnieve Daspet)


Uma lágrima
Pelo beijo que eu não te dei
Pelo afago que eu sufoquei
Pelos sonhos que malbaratei
Pelo encontro que em vão sonhei
Pelo beijo que não me roubaste
Pelo afago que me recusaste
Pelo encontro que tu evitaste
Pelo sonho que tu não sonhaste
Uma lágrima
Pela mão que não entrelacei
Pelo olhar que jamais cruzei
Pela valsa que eu não dancei
Pela música que não entoei
Pela mão que não apertaste
Pelo olhar que tu desviaste
Pela dança que tu não dançaste
Pela canção que não escutaste
Uma lágrima
Pela espera da festa... sem festa
Pela espera do gozo... sem gozo
Pela espera da vida... sem vida
Pelo ápice do fim... sem fim
Uma lágrima
Sem festa... pela fresta que tu me fechaste
Sem gozo... pois no meio do caminho declinaste
Sem vida... foste minha luz e te apagaste
Sem fim... começaste a amar e não terminaste
(autoria:Fátima Irene Pinto)


Será?
Um dia andando descalça,
No chão de terra batida,
Batida de terra vermelha,
De água molhada escorrida.
Um dia ali bem distante,
Com os olhos naquele horizonte,
Um grito saiu lá da alma,
Um grito de dor e tristeza,
O choro brotou nos seus olhos,
E veio aquela pergunta,
Será que eu tenho o amanhã?
Será que eu vivo o meu hoje?
Será que ainda vivo o ontem?
Será que nem vivo mais aqui?
Será que perdi no meu tempo?
Ou será que nunca vivi.
(autoria:Nancy Moisés)



Nel Mezzo del Camin...
Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E alma de sonhos povoada eu tinha...
E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.
Hoje segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.
E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.
(autoria: Olavo Bilac)


Meio século já vivi,
Mais dez anos percorri,
Cavalguei nas planícies,
O deserto atravessei,
Escalei grandes picos,
Admirada fiquei.
Também, em mares naveguei,
Oceanos profundos mergulhei,
Em lagos e rios nadei,
Muito feliz fiquei,
Sobre nuvens flutuei,
Com raios de sol brinquei,
Por longos tempos voei,
Com o arco-íris me encantei.
Agora, já não mais posso fazer
O que outrora fazia,
Posso sim,
Na magia dos sonhos,
Voar na imaginação.
(autoria:Yeda Rangel de Mattos)
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Saudade: doce poema que ninguém entendeu!
Vontade de ter de novo aquilo que se perdeu!


Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?
(autoria: Cecília Meireles)


Esta Noite
Esta noite
no silêncio destas paredes sombrias
cheias de palavras consumidas
a lua dança com gestos de encantamento
e as estrelas sorriem de prazer
Esta noite
invento-te nesta distância magoada
onde as palavras repousam
nos lábios ausentes que riem e se alimentam
de sabores sonhados
Esta noite
arde uma fogueira de nostalgia
e o mistério absorvente da tua luz
entra em mim mansamente
(autoria:António Sem)


Saudade
De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?
De quem é esta saudade,
de quem?
Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...
E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...
De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?
(autoria:Gilka Machado)


Poema Por Um Amor
Pouso meu olhar
vôo rasante
sobre a noite
e oferto meu ser
às estrelas
A brisa tênue
toca minha face
efêmera
e colhe cálida
o meu amor
eterno
Sou inteira flor
meus lábios
pétalas
desabrocham beijos
na imagem ausente
de tua boca
terna
Meu desejo
perfume
exala em orgasmo
a memória
de teu corpo
enluarado
Calo meu olhar
e guardo a noite
por dentro
sonho:
enfim te encontro.
(autoria:Virginia Schall)


Enfim Sós!
Entre quatro paredes,
Finalmente nos entregamos,
Nos curtimos, nos amamos,
Saciamos tantas "sedes"!
No ouvido ecoa ainda a doce melodia
Que marcou aqueles momentos de alegria desvairada.
Na retina, imagens da cama e de roupas pelo chão
atiradas,
Símbolos da imortalização de nossas fantasias!
Errado ou direito,
Tudo que ali "rolou", só a dois diz respeito,
Eu e você, somente a nós!
Hoje posso dizer que estou feliz,
Não me arrependo de nada do que fiz,
Foi sublime o nosso "ENFIM SÓS"!
(autoria: Walter Pereira Pimentel)


Cicatrizes Profundas
A noite inteira se estendia diante de mim.
Fitei a figura pálida do espelho
num longo e silencioso olhar.
Desnudei-me num piscar de olhos
queria capturar a borboleta no ar.
Deitei-me na penumbra do quarto,
nem acordada, nem dormindo,
e como num filme barato
o desenrolar da história assistindo.
Escamoteando as perdas
listei as prioridades.
Fiz uma conta de chegar,
queimando incensos à saudade!
..Cicatrizes profundas...
Não há quem não as tenha.
Proclamo em alto e bom som
As minhas, ainda em carne viva,
São chagas no coração.
(autoria: Delasnieve M Daspet)


Quem é você?
Quem é você...?
Que mexeu com meus sentimentos,
Reacendeu a chama esvaecida,
Iluminou a escuridão dos meus dias...?
Quem é você...?
Que na sombra dos meus pensamentos se esconde,
Que tornou os sonhos possíveis
Mas, quando o chamo não responde...?
Quem é você...?
Que acelerou meu coração,
Tirou-me a razão,
Encheu-me de esperança
Mas furta-me sua presença...?
Quem é você...?
Tecelão de sentimentos que, com belas palavras
emaranhados teceu,
com fios dourados entrelaçados,
enredando-me a alma...?
Quem é você...?
Que surgiu do nada como um espectro
E de mansinho meu corpo tomou...
Mesclou seu prazer com minha solidão
E roubou-me a alma combalida...?
Quem é você...?
Que, os meandros de minha feminilidade, explorou,
Que versos poéticos, à luz da Lua, cantou
E uma saudade dolorida deixou...?
Quem é você...?
Homem inacessível,
Aos meus olhos, invisível
Mas presente em minha pele...?
Quem é você...?!
(autora:Maria Hilda de J.Alão)


Corcel da Felicidade
Ao partires, naquele fim de tarde
Os meus olhos marejaram, tanto, tanto...
Que as águas do meu pranto
Quase me afogaram num lago de saudade!
Apeei da fantasia para o chão da realidade
Não queria que partisses! O meu desejo era tão forte
Que saí atrás de ti, a galope
Montando um corcel chamado felicidade
Com as lágrimas, a minha vista embaçou, ficou turva
E assim, te perdi na poeira da primeira curva
Sumiste para sempre da minha visão!
Hoje, galopando pelos prados da esperança
Carrego o sonho na garupa da lembrança
Tentando ver-te através dos olhos do coração!
(autoria:Walter Pereira Pimentel)


Despedida
E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste.
Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste,
talvez tenha sido melhor assim,
uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval,
uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante
e depois adere a qualquer cordão.
É melhor para os amantes pensar
que a última vez que se encontraram se amaram muito,
depois apenas aconteceu que não se encontraram mais.
Eles não se despediram, a vida é que os despediu,
cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.
(fragmentos do texto de Rubem Braga)
